O Físico da Obra
António Belém Lima
Vila Real 17 de Outubro/2002
A casa Gomes e a casa Cristino vivem especadas no loteamento Vila Campos. Uma arredor residencial recente. Ali, "cordeiros bastardos", olhando a serra do Marão, o prado de Borbela.
São já netas da disciplina moderna. Objectos emudecidos, preocupados consigo. Fazem côro culto com a actual retirada erudita, de quem está longe. Aparentemente.
De facto, constituem-se desde o início numa acomodação física, elaborando mecanismos, sobrepondo cadastros ao cadastro artificial do lote. Os muros altos, as rampas em laje, as escadas entaladas, os degraus maciços, as garagens-terraço... são uma micro-arqueologia, de geometria paradoxal, que fazem demorar a entrada. Nada de moderno debaixo dos pés. Nada de post-modern para os olhos. Esta conceptualização do contexto servirá sobretudo para um corpo-a-corpo com a arquitectura. Coisa ancestral.
Mas esta habilidade semântica, revela-nos afinal coisas de agora. A trapezoidal casa Gomes. A paralelepipédica casa Cristino. Volumes platónicos que se fragilizam em consolas massivas (cG) ou esmagam um extenso rodapé em vidro (cC). Do lado Poente, para a paisagem distante, oferecem uma varanda de altura dupla ou uma fachada-unicum, como se se tratasse de escritórios. Uma lógica de máxima contundência, uma espécie de expressionismo gelado. "O que vês é apenas o que vês", dizia Frank S. Sobreposta à manipulação material (há paredes de betão forradas de granito, há varandas delgadas impossíveis...), esta gramática dos extremos vai-se constituindo como uma activa paisagem contemporânea.
No entanto, as casas de Cannatà / Fernandes investem sobretudo no território mais codificado, aquele obviamente mais resistente: o interior doméstico. A "cave-rés do chão-andar" é aqui terra-rua-ar. Há três piano-nobile, tal a energia equivalente dos pisos, o carácter excessivo do espaço face ao seu comum destino. Esta riqueza súbita é ainda intensificada pela escada vertiginosa. Subimos em chão de mármore para os quartos, como num palazzo veneziano. Descemos para a sala térrea como em solar barroco de província. No meio, um contínuum brilhante living, que dispensa portas ou limites. A nostalgia mais ou menos kitsch do doméstico, é aqui estilhaçada. Compensada pela cenografia que a luz e a madeira negra vão gerando em disputa sábia. Em espaços de nome comprido. A varanda-de-peitoril-alto, o patamar-de-janela-no-chão, a lavandaria-que-olha-o-bosque, a cozinha-esticada, os banhos-com-sol... Estes espaços todos interessantes dirão, acusam um refazer de rituais em outono de tempo real.
O granito e reboco vernaculares são aqui vizinhos estranhos de extensos polidos painéis de alumínio ou vidro. A sucupira e o mármore branco, derramados nos interiores, não são da região. Procuram antes, nesta nova cerimónia e escala, uma essencialidade perene. O projecto de execução, com uma atenção sistematizada (carpintarias, armários, articulações, movimentos...) não acrescenta nada a esta vontade estratégica. Apenas materializa a procura de uma nova permanência, mais contingente, mais adaptada. Transforma-se a vocação abstracta da modernidade. Combina-se ética redutora com ambiguidade. Conforma-se uma espécie de regionalismo global, que convoca de novo o físico da obra para afirmar já não uma identidade mas apenas uma presença.
A máquina de habitar, domestica-se. Sem pecado no exterior. Mais mágica no interior.
"O gosto da maçã... reside no contacto do fruto com o palato, não no fruto em si mesmo..."
Jorge Luís Borges em prefácio à Obra Poética
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DATA
NOVEMBRO 2002