Notas Sobre a Arquitectura de Cannatà e Fernandes
Paulo Martins Barata
Numa carta escrita sob o pseudónimo de Lorde Chandos, Hugo von Hofmannsthal declarou: "Na verdade, a língua em que eu talvez seja capaz não só de escrever, mas também de pensar, não é o Latim nem o Inglês, o Italiano ou o Espanhol, mas uma língua em que as coisas mudas falam comigo e em que talvez um dia, na sepultura, possa provar a minha inocência perante um juiz desconhecido". Esta afirmação algo enigmática de Hofmannsthal é, de facto, o seu reconhecimento do problema da língua e do discurso nas sociedades modernas. Para ele, como provavelmente para o seu contemporâneo vienense Karl Kraus, o silêncio era a única possibilidade que se abria àqueles que desejavam dizer algo de verdadeiramente significativo. O vazio criado pelo silêncio teria um maior alcance do que a gritaria ensurdecedora da populaça.
Se eram esses os rugidos dos média na premonitória Viena de 1910, o que dizer então do dealbar deste novo século no tocante à ruidosa sinfonia dos factos e dos números? Aqueles que, de entre nós, optaram por não pactuar com a estética urbana do caos - como se contribuir para o caos neutralizasse o seu efeito desmoralizador - continuam a debater-se com a desconcertante impossibilidade enunciada por Hofmannsthal.
De facto, o actual nível de imediatismo a que a produção arquitectónica dominante tem de dar resposta, deixa poucas esperanças quanto ao advento dos dias mais frios e mais sóbrios por que Karl Kraus ansiava. Mesmo para receber a sua limitada quota-parte de atenção, a arquitectura tem que recorrer a processos próprios de actividades profissionais como o marketing e a política. Os nomes cativantes, as utopias pessoais, as metáforas sugestivas, as iconografias descartáveis, fazem no seu conjunto parte de um jogo que se revela cada vez mais vazio na substância e débil nos resultados.
Felizmente, tudo isto parece coexistir com um mecanismo de autocrítica que tem aparentemente permitido que a história funcione como um filtro, estabelecendo um certo equilíbrio entre os fenómenos arquitectónicos de grande projecção mediática e as práticas menos conhecidas, que produzem, não obstante, um trabalho de valor incontestável. Este é sem dúvida o caso de Cannatà e Fernandes, tendo em conta o conjunto de trabalhos marcantes que este casal italo-português produziu no âmbito da prática e da teoria da arquitectura. Seguindo uma tradição que não teme confronto na cultura arquitectónica italiana, Michele Cannatà e Fátima Fernandes têm formado consciências, activado o debate, organizado exposições, colaborado como correspondentes internacionais, realizado eventos, prestigiado a indústria da construção e promovido publicações de arquitectura em Portugal. Um trabalho aliás feito com grande generosidade, abertos a todas as inflexões que possam conduzir a um entendimento mais amplo do nosso tempo, sem sucumbir aos estímulos estéreis das modas. Se mais não houvesse, a sua contribuição para a cultura arquitectónica portuguesa seria já inestimável.
O facto da sua produção se dividir entre Portugal e Itália é particularmente interessante para as relações entre teoria e prática. Note-se, neste sentido, que a Escola de Belas Artes do Porto sempre se afirmou como uma escola intensamente pragmática - independentemente da sua agenda política -, um espaço onde alunos e professores concentravam esforços no desenho e no detalhe, mesmo que os projectos fossem de dimensão relativamente modesta. Pelo contrário, o meio altamente politizado das escolas italianas do pós-guerra constituía uma referência na produção da teoria arquitectónica. Como tal, não surpreende que o resultado da formação académica de Fátima Fernandes na Universidade do Porto combinasse de forma tão intensa com a experiência de Michele Cannatà, ex-aluno da Universidade de Reggio-Calabria. Os primeiros trabalhos desenvolvidos em Itália, em especial o cemitério de Melicucco, ainda incompleto relativamente ao projecto de 1990, são evocativos de princípios elementares da arquitectura prototípica greco-romana, tais como a intersecção do Tholos e do Stoa.
Basta retroceder aos meados dos anos setenta para constatar que Portugal é um dos países que mais vigorosamente incorporam o manifesto crítico-regionalista de Kenneth Frampton, ao qual pessoas como Fátima Fernandes, formada na escola do Porto, no início dos anos 80, estiveram certamente expostas. O famoso aforismo de Nuno Portas - a "escola de rigor" - procurava definir uma escola que, entre os formalismos degenerados e decorativismos gratuitos praticados pelos ateliers empenhados em servir um turismo florescente e a expansão urbana das casas tipo maison, numa concretização do sonho do emigrante regressado, optava por uma postura de resistência, se não mesmo de protesto, através de uma crítica sem concessões ao legado modernista. Como o próprio Nuno Portas fez notar:
Numa atmosfera em que proliferavam formas bizarras, grande profusão de detalhes e alusões kitsch ao recém descoberto vernáculo tornava-se necessário criar uma escola de rigor que lidasse fundamentalmente com estes problemas e produzisse as respostas formais de que careciam. Não surpreende, pois, que a partir dos anos 70 a escola de rigor se empenhasse na reabilitação das fontes puristas do racionalismo alemão e holandês dos anos 20, ao mesmo tempo que re-utilizava a interpretação livre dessas fontes feita por Aalto, passando não apenas por Le Corbusier, mas também por Wright e Khan, pelo Neo-Realismo italiano e pelo Neo-Liberty (in 9H, Londres: 5 (1983), p. 41).
A presença de Mies - em especial do canónico Pavilhão de Barcelona - parece entrever-se na elegante Praça Nicolas Green de Cannatà e Fernandes, construída entre 1990 e 1995 para o município de Melicucco. A cuidadosa inserção deste plano travertino no espaço deixado vago pela demolição de uma ruína, criou um lugar que é simultaneamente solene e cívico. Num outro ponto de Itália, no centro histórico de Polistena, a sombra de Loos ganha proeminência no alçado da casa Marchetta, onde o sugestivo antropomorfismo do pórtico de mármore sulcado de veios é contrabalançado por dois olhos recuados e que aparentemente nos fitam do piso superior. A influência crítica de Aldo Rossi, presente na formação de Cannatà, é naturalmente visível nos projectos de habitação de maior escala. Recordo, por exemplo, os projectos dos bairros sociais construídos em Polistena para a cooperativa "Progresso e Lavoro" entre 1986 e 1989. Aqui, o pórtico de triplo pé-direito que serve de acesso aos apartamentos é evocativo da sensibilidade tipológica da Tendenza. Significativamente mais neoplasticista na sua essência é o anexo da Igreja de São Francisco de Vinhais, no Norte de Portugal, onde a inserção de um volume imaculadamente recortado, enquadrado numa estrutura rebocada que emoldura uma superfície envidraçada, cria um contraste decisivo entre o edifício da igreja e da construção adjacente.
Loos, Mies, Rossi e Siza parecem ter sido figuras inspiradoras das primeiras obras de Cannatà e Fernandes, com os projectos mais pequenos de lojas e casas a serem literalmente detalhados como "poésie d' équipage" - uma experiência de construção só possível de realizar graças a uma proximidade empenhada entre os arquitectos e os diversos artífices.
Os seus projectos mais recentes e de maior escala, quer de encomenda quer de concurso manifestam uma sensibilidade exigente e radical em relação ao objecto arquitectónico. Recordo, por exemplo, a caixa de escada e o elevador à Pousada tardo-modernista de Picote. Esta hermética caixa de betão forma uma espécie de monólito em forma de "L" em conjunto com o auditório semi-enterrado. Este último tem a forma de um palco oco e envidraçado, com as vistas magníficas das montanhas do Douro em pano de fundo. Actualmente em construção, este projecto é particularmente interessante no contexto da prática de Cannatà e Fernandes, já que o projecto antecede o extenso e exaustivo levantamento crítico do legado modernista da arquitectura das barragens e centrais hidroeléctricas do Douro, publicado em 1997 com o sugestivo título "Moderno Escondido".
Em lado nenhum esta objectividade neoplástica se encontra mais claramente expressa do que no projecto apresentado a concurso para a construção do edifício central da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra. Nele o prototipico lote quadrado do campus universitário é inteiramente ocupado por uma densa e translúcida caixa de onde se projectam portentosas aberturas em balanço, evocando a imagem canónica da mão a deslizar por uma das maquetas da Unité d'Habitation de Le Corbusier.
Cannatá e Fernandes confrontam-se uma vez mais com a obra de menor escala na resposta ao convite da EXPONOR (Concreta 2002) para a concepção de uma casa experimental que incorporasse novos materiais de construção e a aplicação da mais recente tecnologia domótica.
A casa ergue-se num terreno plano e abstracto de 12 por 12 metros, localizada frente à entrada dos pavilhões da feira, sugerindo a possibilidade de ser virtualmente construída em qualquer lado desde que a tecnologia esteja disponível. Sem surpresas, a estrutura desta casa de um só piso com dois pátios tem ressonâncias do programa experimental de John Estenza, as Case Study Houses construídas na Califórnia entre 1945 e 1950 segundo projectos de Ellwood, Soriano, Koenig, Eames e, sobretudo, de Frey e Neutra (estes últimos como influência subjacente, embora sem participação activa no programa). Aqui contudo, os painéis de madeira e tijolo daqueles, dream lugar a um sistema de paredes realizado em combinações fechadas de perfis de vidro "U" com um enchimento de micro-grânulos de polipropileno para isolamento e controlo da iluminação.
Iniciei esta dissertação sobre a obra de Fátima Fernandes e Michele Cannatà reconhecendo que o problema da linguagem continua a ser essencial para a validade cultural daquilo que decidimos fazer com as ferramentas que nos são concedidas. Na verdade, é com pequeníssimos passos que avançamos na reconstrução do mundo através dos signos, das imagens e das formas da história. A nossa tarefa é uma construção relativamente silenciosa.
AUTORES
FÁTIMA FERNANDES E MICHELE CANNATÀ
DESIGNER
JOÃO MACHADO
EDITOR
ASA EDITORES II S.A.
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@ MICHELE CANNATÀ & FÁTIMA FERNANDES
1ª Edição Outubro de 2003
DEPÓSITO LEGAL
200 509/03
ISBN
972-41-3629-9