Scilla é um nome mítico que nos transporta para um povoado antigo e legendário. O lugar possui uma configuração orográfica e morfológica que contribuiu claramente para a construção de uma literatura fantástica à sua volta. O promontório, uma protuberância rochosa lançada sobre o Estreito de Messina e coroada pelo Castelo Ruffo, constitui-se como uma referência a grandes distâncias afirmando-se como um dos lugares mais preciosos desde o ponto de vista paisagístico e ambiental, da costa Calabra.
O sistema de implantação originário da cidade é constituído por três zonas: Chianalea, Marina Grande e San Giorgio. As características físicas do lugar constituem as delimitações naturais destes três territórios urbanos.
A Norte, Chianalea, a zona que mais conservou as características tipológicas, é construída sobre o maciço rochoso à borda da água com o lugar da barca sob a habitação.
A Sul, separada de Chianalea pelo promontório onde se localiza o castelo, a zona de Marina Grande orienta-se ao longo de uma faixa que se desenvolve horizontalmente entre a preciosa e modesta praia e a linha de caminho de ferro.
San Giorgio desenvolve-se sobre o planalto sobranceiro às edificações da linha do mar e, ao contrário destas, estabelece relações físicas mais facilitadas com o território terrestre.
Atingida por ruinosos terramotos em 1783 e 1908 Scilla, pelo forte carácter da sua morfologia, conseguiu conservar as características da implantação original.
A nova expansão orientada pela obra de reconstrução, sucessiva ao terramoto de 1908, desloca-se para uma área a Norte de San Giorgio, denominada Jeracari, com uma implantação de malha quadriculada indiferente à morfologia extremamente acidentado do território, vindo a dar continuidade à construção clandestina de toda uma área ausente de correctas infraestruturas viárias e equipamentos.
Ao longo de um percurso que se inicia desde a margem Sul de Marina Grande até ao bordo do planalto de Jeracari, uma série de intervenções são projectadas para definir e corrigir os pontos débeis do actual sistema urbano e dotar a cidade de infraestruturas viárias e de estruturas de serviço de apoio à residência e à actividade económica.
O parque de estacionamento com ateliers para actividades artesanais contido na espessura do muro de suporte da encosta, configura-se como último sinal do sistema construído e funcionalmente como actividade económica e serviço de apoio à actividade turística e balnear.
A demolição e reconstrução da capela de S. Rocco é o resultado da necessidade de abrir uma rua que vai dar acessibilidade automóvel a uma vasta área residencial clandestina servida actualmente por caminhos de peões de terra batida.
O lugar de implantação da capela, usufruindo de uma relação mítica com a paisagem, condicionou o projecto referenciando-o com a imagem de uma barca em movimento de partida para o mar. A cela da imagem de S. Rocco é circundada por um espaço de transição com o exterior que proporciona uma relação de ambiguidade entre a interiorização da cela e a dimensão infinita do espaço envolvente.
O mercado, colocado no enfiamento e remate do novo eixo comercial, estabelece uma forte relação visual com a praça construída pelos novos edifícios de habitação propostos.
A intervenção na zona de Jeracari prevê a deslocação do actual campo de futebol, no sentido de recuperar uma das áreas mais fascinantes em termos paisagísticos, para completar o sistema urbano através da realização da Pousada da Juventude, equipamentos desportivos e culturais.
As unidades residenciais foram desenvolvidas a várias escalas introduzindo diferentes tipologias que privilegiam a construção em banda e em duplex, de forma a proporcionar aos utentes espaços interiores com pé direito duplo que possam usufruir de relações directas com o exterior e, ao mesmo tempo, de uma óptima relação visual com a paisagem que, naquele lugar, é de excepção.
A Pousada da Juventude e equipamentos desportivos e culturais articulam-se em dois corpos formando uma praça aberta para o mar. A orientação da praça para o castelo pretende estabelecer um confronto directo entre estes espaços públicos novos e antigos, de forma a recuperar plenamente uma das referências mais importantes da memória colectiva da cidade.

AUTORES
FÁTIMA FERNANDES E MICHELE CANNATÀ

CLIENTE
CÂMARA MUNICIPAL DE SCILLA

LOCALIZAÇÃO
SCILLA. ITÁLIA

DATA DE PROJECTO
1984
RECUPERAÇÃO DAS ZONAS CLANDESTINAS DE SCHILLA
Projectos