A imagem que o edifício pretende propor é a de um volume suspenso sobre o pouco território arborizado ainda existente no Pólo Universitário II e preservar a natural morfologia do terreno.
Um volume que, permitindo uma penetração visual desde os quatro lados do terreno, estabelece possíveis articulações funcionais a partir das várias quotas das ruas. A espessura deste volume definido pelo perímetro do lote é de dois pisos.
À excepção das fachadas Norte e Sul, apenas ligeiramente perfuradas para a entrada de luz e relacionar visualmente o interior com o exterior, as restantes fachadas a Nascente e Poente são completamente realizadas em parede dupla, ventilada de vidro.
Dois volumes menores, colocados quase como suporte do grande paralelepípedo, constituem a articulação entre o terreno e as funções dos planos superiores. Um dos volumes, realizado em ferro e vidro, contém o espaço de entrada e de articulação funcional com os restantes espaços, bar e associação de estudantes. O outro em betão aparente, contém o auditório e o anfiteatro garantindo uma entrada autónoma a Norte em articulação com o espaço de equipamento localizado a Poente.
Os espaços comerciais, realizados em ferro e vidro, são pensados como volumes completamente autónomos que se implantam com ligeiras adaptações da pendente do terreno.
Grandes pátios com a direcção Norte/Sul proporcionam grandes vazios no interior do volume do edifício, favorecendo a iluminação e ventilação natural dos espaços interiores e proporcionando o controle térmico de todo o edifício.
No interior dos pátios, árvores altas procuram uma relação de memória entre a vegetação preexistente e os novos edifícios do Pólo Universitário.
A cobertura prevê o revestimento com manto vegetal com o objectivo de ampliar os espaços verdes, optimizar as condições de isolamento térmico do edifício e melhorar o âmbito visual dos edifícios localizados nas cotas superiores.
A ideia de libertar o solo, recorrente na história da arquitectura moderna, graças às possibilidades que as técnicas construtivas nos oferecem, pretende exprimir uma posição do projecto claramente orientada para a necessidade de recuperar o suporte natural e alargar as possibilidades do uso colectivo do espaço.
Sendo a Universidade o veículo da difusão do saber, estes edifícios que dela são parte integrante e activa deverão ser marcos representativos das capacidades artísticas, técnicas e cientificas da sociedade que os construiu.
Foi tendo consciência destas aspectos que se desenhou uma proposta que reflecte a síntese de um conjunto de parâmetros que iremos abordar por pontos para melhor percepção, mas que foram sempre considerados numa perspectiva holística quando funcionando em conjunto.
O recurso fundamental para a sobrevivência das espécies é a água doce potável e esta começa a ser insuficiente para o abastecimento das populações e de forma mais gravosa para as comunidades urbanas. Sabendo-se que a permeabilidade do solo garante a infiltração das águas pluviais em profundidade contribuindo para a recarga dos aquíferos, optou-se por uma solução de implantação do edifício que garantisse a menor impermeabilização do solo, ficando o edifício "solto" sobre o solo. As áreas de impermeabilização ficam assim reduzidas ao estacionamento, auditório e aos pontos de entrada/saída. Ainda relacionado com a problemática da preservação da água doce apresenta-se o problema da drenagem das águas pluviais das superfícies impermeáveis que, na solução apresentada, se reduz praticamente à cobertura do edifício. A opção de projecto foi a de direccionar estas águas da drenagem pluvial para poços drenantes que vão garantir a infiltrabilidade destas águas no solo, evitando-se o seu encaminhamento para o sistema de drenagem de águas pluviais o que implica sempre problemas a jusante e a rápida transformação da água doce em água salgada, impedindo o seu uso pelo homem. O facto de a cobertura ser revestida com terra e vegetação leva a que haja uma maior capacidade de retenção destas águas, libertando-as lentamente e, portanto, permitindo um correcto funcionamento dos poços drenantes. Conjuntamente com o sistema de poços drenantes será instalada uma cisterna que receberá as águas mais limpas sendo posteriormente aproveitada para a rega do espaço exterior. Quanto ao revestimento vegetal a utilizar, ir-se-ão privilegiar espécies com elevada resistência ao deficit hídrico e com sistema radicular que não ataque os materiais da impermeabilização.
Sabendo-se que edifícios desta dimensão são grandes consumidores de energia ora para o aquecimento, ora para o arrefecimento (este aspecto é ainda mais relevante em Coimbra onde se verificam grandes amplitudes térmicas ao longo do ano) e tratando-se de um edifício de uso público que terá que apresentar elevados padrões de conforto bioclimático interior, o desenho arquitectónico define uma solução que controla a quantidade da radiação solar a receber através de um jogo de pátios arborizados que têm aberturas Nascente - Poente. Estes pátios pelo facto de não apresentarem "paredes" até ao nível do solo apresentam uma boa circulação do ar, sendo bem ventilados, aspecto este fundamental para evitar sobreaquecimentos ou arrefecimentos. Do ponto de vista térmico a cobertura é outro dos pontos fundamentais, pois o último piso pode apresentar grandes amplitudes térmicas diurnas e anuais. A solução escolhida passa pela colocação de uma cobertura ajardinada que é um óptimo isolante térmico. Ainda dentro desta problemática do conforto bioclimático foi considerado o revestimento vegetal dos espaços exteriores ao edifício propondo-se essencialmente árvores de folha caduca junto aos alçados Sul e Nascente para que chegue uma maior quantidade de radiação solar às fachadas, acessos e jardins durante os meses de Inverno, permitindo o seu aquecimento mas, que exista ensombramento durante os meses mais quentes de Verão evitando-se aquecimentos. Nestas mesmas áreas, serão utilizadas espécies capazes de libertarem grande quantidade de vapor de água para a atmosfera aumentando a humidade relativa do ar, o que dará a sensação de maior frescura (ex.: Choupos, Freixos, Salgueiros). Nos alçados Poente e Norte a composição do material a utilizar terá um maior número de espécies de folha persistente.
O solo é também um recurso natural escasso de difícil obtenção no espaço urbano e não é solução a delapidação deste recurso dos espaços rurais responsáveis pela produção de alimentos, cujo sucesso passa obrigatoriamente pela qualidade do recurso solo. Sendo assim, o solo a utilizar resultará da decapagem dos solos existentes no local nas áreas sujeitas a impermeabilização ou alteração da topografia, sendo armazenado em pargas durante a execução da obra sendo, durante este período, enriquecido com nutrientes, substrato orgânico e areia de rio, preservando-se também todos os microorganismos que dele fazem parte. Serão ainda incorporados materiais - resíduos por forma a se transformar "lixo" em solos aumentando-se o seu volume e quantidade. Dentro dos resíduos a utilizar destacam-se os da industria madeireira e os da agricultura local. Deste modo aproveita-se o solo existente e melhora-se a sua qualidade e drenagem garantindo no futuro um composto ideal para a construção dos jardins.
Ainda no desenho do edifício foi considerado o factor poluição sonora proveniente do exterior cujas principais fontes são os arruamentos Norte e Sul.
Finalmente, e não por considerar-mos de menor importância, temos os aspectos estéticos associados à integração do edifício na paisagem envolvente. O plano apresentado para o Pólo Universitário apresenta uma elevada densidade de construção e de impermeabilização e não permite grandes relações físicas e visuais entre a Colina e o Rio, pelo que a solução a desenvolver tem que potencializar a relação entre estes elementos naturalizados e os edifícios a construir. A cobertura deste edifício é muito visível quer para quem se situa na Colina, quer para quem se situa nos edifícios implantados a Sul pelo que se considerou que deve funcionar como um elo de ligação visual entre os espaços verdes Colina e Margem ribeirinha oferecendo, conjuntamente com o espaço aberto situado a Poente, a sensação de "verde continuo".
AUTORES
FÁTIMA FERNANDES E MICHELE CANNATÀ
COLABORAÇÃO
MARTA LEMOS
FILIPE AFONSO
ISABELLA FERA
ALESSANDRA CERRITO
CRISTINA NEVES
FUNDAÇÕES E ESTRUTURAS
G.O.P. - JOÃO MARIA SOBREIRA
REDE DE AGUAS E ESGOTOS
G.O.P. - RAQUEL FERNANDES
INSTALAÇÕES E EQUIPAMENTOS MECÂNICOS
GET - ALFREDO COSTA PEREIRA
INSTALAÇÕES ELÉCTRICAS, TELEFÓNICAS, NFORMÁTICA E SEGURANÇA
OHM - FERNANDO SILVA GUSMÃO
ARRANJOS EXTERIORES
LAURA COSTA
CLIENTE
UNIVERSIDADE DE COIMBRA
LOCALIZAÇÃO
LAMEGO. PORTUGAL
DATA DE PROJECTO
2002
FOTOGRAFIA MAQUETE
JOÃO FERRAND