A rua da Sofia é legível, com uma certa dose de abstracção, como um grande e complexo objecto arquitectónico, onde se distinguem com grande clareza partes diferentes em consistência e função. A compactação e solidez modular da fachada "nobre" definida pelos colégios, um bloco de pedra, articulado por pátios, encastoado numa encosta acentuada, dão à rua um carácter monumental que mesmo a fragmentação e permeabilidade introduzida na fachada oposta ao longo dos últimos anos não consegue decompor.
Por razões históricas, o funcionamento articulado das partes deste conjunto faltou desde o seu início: ainda antes da conclusão de todo o conjunto urbano a mudança das estratégias gerais provocou a alteração do programa funcional, levando a que as duas frentes da rua não funcionassem como previsto inicialmente, uma para a outra, nem para as restantes partes da cidade.
O principal objectivo desta proposta é tornar a dar, no futuro, sentido à colocação da rua e das suas partes no todo urbano da cidade de Coimbra. A concretização deste objectivo passa pela definição de novas relações entre o espaço interior dos colégios e o espaço exterior da rua da Sofia, da encosta Poente e da frente do rio, pela correcção da densidade viária e pela introdução de novas funções nos três espaços estratégicos identificados como Terreiro da Erva, estacionamento do Tribunal e encosta Poente em articulação com as cercas dos colégios.
A grande quantidade de espaço interior não é completamente usada por falta de uma eficiente acessibilidade e pela presença de alterações impróprias e funções estáticas inseridas nos edifícios, como é o caso da cabeceira da igreja de S. Domingos, onde a discutível função alojada de centro comercial nega completamente o sentido espacial originário.
A rua sofre de uma quantidade exagerada de trânsito automóvel e os poucos espaços públicos abertos na malha urbana são completamente utilizados como parque de estacionamento, o que anula completamente qualquer outra função.
A torre em conclusão da rua da Sofia, localizada no espaço lateral ao Tribunal actualmente usado como parque de estacionamento, como charneira, constitui quase um contraponto aquilo que sucede no início da rua com o complexo de Santa Clara, que articula a relação entre o centro mais antigo e o eixo da rua. Também aqui se cria um nó através de um elemento de excepção, quer pelo assento quer pelo desenvolvimento vertical. Este elemento simbólico acentua o pensamento moderno da concepção da rua da Sofia e transporta-o para uma dimensão temporal futura onde a acessibilidade, funcional à actividade de habitar, aprender e lazer, constrói uma estratégia que lhe restitui a sua unidade morfológica ao retirar-lhe densidade de tráfego automóvel e ao introduzir um factor reactivo na sua relação com a cidade.
A rua da Sofia passará assim a poder conter apenas um sentido de trânsito automóvel, privilegiando o de saída da cidade, com a acentuação dos passeios de modo a consentir a continuidade do trânsito pedonal com a Rua Visconde da Luz e com essa a ligação à frente fluvial.
A directriz transversal colina/rio é reforçada através da criação de novos acessos abertos sobre a rua da Sofia mas sobretudo através do filtro dos corpos dos colégios constituídos acessíveis ao público.
Os acessos da rua da Sofia ao Terreiro da Erva são ruelas de secção reduzida, o que provoca uma excepcional passagem de escala para o espaço vazio do Terreiro, cuja percepção global é fortemente alterada e confundida pela difusão de automóveis estacionados e pela irregularidades dos bordos. Os edifícios circundantes de facto relacionam-se com o Terreiro através de fachadas posteriores, empenas e anexos avançando e retrocedendo para este, "Almofada" que amortiza todas as diferenças. Projectar este espaço passa portanto, ante de tudo, pela redefinição dos seus limites: demolir as adições na sua grande maioria deterioradas mas, segundo o mesmo princípio de agregação, juntar como substituição corpos novos e leves aos edifícios existentes, garantindo as exigências funcionais contemporâneas, transformar o impacto das empenas através da justaposição de grelhas metálicas de suporte a essências vegetais trepadeiras, invertendo o sentido de jardim horizontal em vertical.
Os terrenos dos colégios constituem actualmente espaços residuais, facto que se deve em especial ao fraccionamento e imobilidade das funções instaladas, do carácter acentuado da encosta Poente e das poucas conexões existentes entre a rua da Sofia e a rua de Aveiro. A proposta propõe a inversão desta condição marginal através da construção de um parque equipado que não seja as "traseiras" dos colégios mas sim um espaço central, fluido, no qual o percurso principal se articula como um pérgola contínua construída por matéria vegetal onde vão acontecendo instalações e equipamentos abertos sobre o parque e sobre a cidade com funções de galerias de arte, apoio aos tempos livres, ateliers para artistas, escolas de arte para crianças, ateliers de design, ateliers alta-costura, laboratórios didácticos, bares, salas de leitura etc.
Esta amplitude funcional, complementa e dissolve na cidade as funções mais específicas que destinamos para os colégio onde se localizariam as Faculdades de Desenho, Pintura, Design, Arquitectura, Comunicação, Moda, Paisagismo, articuladas com a localização estratégica dos serviços administrativos de unidades empresariais ligadas à produção no âmbito das artes.
Na encosta situada entre a rua da Sofia e a rua Infante D. Henrique, propomos a construção de um jardim. Dadas as características morfológicas do terreno, a localização geográfica, a exposição solar Poente e as funções a desenvolver, o desenho que se apresenta para a encosta baseia-se num conjunto de jardins "suspensos" e de giardine secreti que se vão descobrindo à medida que percorremos o "túnel verde". Os jardins vão aparecer numa sucessão de clareiras que se alternam com bosques onde o efeito da luz, cor, aroma, tacto, vai sofrendo modificações sempre que entramos ou saímos do túnel. São jardins de inspiração mourisca, que procuram a fórmula mágica do Generalife e uma ténue e contemporânea lembrança de que Coimbra esteve sob ocupação Árabe desde o século VIII até ao século XI. A água, as plantas, a luz serão os elementos mais representativos, sendo apoiados por algum equipamento dinamizador de actividades complementares no espaço.
Se a inspiração da organização do espaço nos vem do passado, as suas funções relacionam-se com a vida do homem contemporâneo, afirmando uma forte componente cultural, artística e lúdica.
AUTORES
FÁTIMA FERNANDES E MICHELE CANNATÀ
COLABORAÇÃO
MARTA LEMOS
ISABELLA FERA
FILIPE AFONSO
CRISTINA NEVES
ESTRUTURAS
G.O.P. - JOÃO MARIA SOBREIRA
REDE DE AGUAS E ESGOTOS
G.O.P. - RAQUEL FERNANDES
INSTALAÇÕES E EQUIPAMENTOS MECÂNICOS
GET - ALFREDO COSTA PEREIRA
INSTALAÇÕES ELÉCTRICAS, TELEFÓNICAS, INFORMÁTICA E SEGURANÇA
LIGHTPLAN - FERNANDO SILVA
ARRANJOS EXTERIORES
LAURA COSTA
CLIENTE
CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA
LOCALIZAÇÃO
COIMBRA. PORTUGAL
DATA DE PROJECTO
2003